Articulações sobre tecnologia, inteligência e educação (Em construção)
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PROCESSO DE ARTICULAÇÃO
ENTRE OS AUTORES/AS |
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Para Vieira Pinto (2005),
a técnica é o fazer humano, isto é, a exteriorização do conhecimento para
dominar a natureza. Assim, a construção de uma ponte, por exemplo, resulta da
aplicação técnica de procedimentos e métodos; contudo, para realizá-la, utilizam-se
objetos técnicos ou aparatos tecnológicos produzidos por meio de aplicações
técnicas anteriores. A tecnologia, nessa
perspectiva, consiste no momento em que o ser humano compreende a técnica e é
capaz de modificá-la ou aprimorá-la com base no domínio científico e social.
Sem esse domínio, isto é, sem a tecnologia, o ser humano tende apenas a
reproduzir técnicas, tornando-se dependente delas. Atualmente, o conhecimento
científico e social acumulado tem possibilitado o aperfeiçoamento das
técnicas e, consequentemente, dos aparatos tecnológicos. Entretanto, quando o
olhar se dirige a uma nação, percebemos, muitas vezes, sua incapacidade de
definir seu próprio caminho de desenvolvimento, processo que deveria estar
relacionado ao refinamento das técnicas e dos aparatos tecnológicos
necessários à soberania nacional. A ausência de criticidade e de
domínio científico (a ausência de tecnologia, nos termos do autor) gera
dependência e sustenta uma concepção ingênua de tecnologia. É nesse ponto que
Vieira Pinto evidencia o conceito de cibernética para discutir os mecanismos
de controle que envolvem o trabalho humano, as técnicas, as tecnologias e a
relação desigual entre países desenvolvidos e subdesenvolvidos. Para ele, a
ideia de futurismo e de modernidade tecnológica funciona como um instrumento
para que países desenvolvidos mantenham o controle da tecnologia em escala
global. Dessa forma, o verdadeiro
avanço tecnológico reside na consciência crítica e na capacidade de uma nação
de decidir seu próprio percurso de desenvolvimento, sendo os aparatos
tecnológicos apenas meios para esse processo. No campo da educação, é
possível visualizar com clareza o que sejam tecnologia, técnica e aparato. A
plataforma digital “Construtor de Área”, por exemplo, é um artefato tecnológico. Sua existência
decorre da aplicação de procedimentos técnicos, como a programação, que por
sua vez se fundamenta em saberes científicos e sociais relacionados à
matemática e à computação. Ao entendermos que técnica se
refere a procedimentos, percebemos que, no contexto escolar, a elaboração de
uma estratégia metodológica para o ensino-aprendizagem com esse aparato
constitui, em si, uma aplicação técnica. Para realizar essa aplicação, o professor
substitui o “caderno”
(aparato analógico) por um computador conectado à internet e uma plataforma
digital, reconfigurando assim os meios disponíveis para a atividade
educativa. |
O conceito de técnica em Ellul
(1964) alinha-se ao de Vieira Pinto (2005) na medida em que ambos compreendem
que a técnica não se limita às máquinas, mas se refere ao conjunto de métodos
eficientes, isto é, à forma ou ao procedimento mais eficaz de se realizar
algo. Os dois autores também convergem na crítica à ideia de neutralidade
tecnológica, especialmente no que diz respeito à suposta independência das
tecnologias em relação às relações de poder, quem fabrica, quem lucra e quem
consome. Contudo, diferentemente de
Vieira Pinto (2005), Ellul (1964) adota uma visão mais pessimista a respeito
dos procedimentos e do próprio aparato tecnológico. Para ele, existe o risco
de a sociedade ser engolida pela lógica da eficiência técnica, o
aprimoramento de técnicas gera novos aparatos, que por sua vez reforçam a
busca incessante por eficiência, escapando ao controle humano. Assim, Ellul
entende que a técnica organiza o mundo e modela o ser humano. Já Vieira Pinto (2005) propõe
uma saída ao defender que a tecnologia deve funcionar como a consciência
crítica da técnica. Nessa perspectiva, cabe ao ser humano repensar
constantemente os procedimentos e métodos e, por meio do conhecimento
científico e social (tecnologia), aprimorar a técnica conforme suas
necessidades e objetivos. No campo da educação escolar,
reconhece-se que existem mecanismos de poder que moldam a própria identidade
da instituição e suas práticas (Dias Sobrinho, 2003). Esse ponto se torna
evidente quando percebemos que metodologias transmissivas são, na verdade,
procedimentos, técnicas esvaziadas de uma concepção crítica. No contexto da sala de aula, a
escolha da técnica (metodologia), a partir de determinada base
epistemológica, revela a concepção tecnológica, de educação e de
ensino-aprendizagem que fundamenta o processo de inovação na instituição ou
que orienta a prática docente. Isso evidencia a alienação e a incorporação
ingênua da tecnologia na educação escolar. Na epistemologia behaviorista,
por exemplo, o ensino é transmissivo: o estudante é condicionado e ocupa uma
posição passiva (Dakich, 2008). O artefato tecnológico, nessa perspectiva, é
incorporado para substituição ou melhoria (ampliação), e não para redefinição,
conforme proposto por Ruben Puentedura (2009), reforçando o pessimismo de
Ellul (1964). Por outro lado, a modificação e
a redefinição geralmente se fundamentam em epistemologias
sociointeracionistas (Vygotsky). De acordo com Kozulin (2000, apud Monereo;
Coll, 2010, p. 76), as tecnologias funcionam como “instrumentos para pensar,
sentir e agir sozinhos e com outros, ou seja, como instrumentos psicológicos
no sentido vygotskiano da expressão”. O digital,
nesse contexto, permite a desterritorialização do saber (Lévy, 1999), promove
a agência do estudante (Dakich, 2014), além de favorecer colaboração,
transparência e aprendizagem (Pimentel e Silva, 2023). No primeiro modelo — transmissivo — prevalece uma
concepção ingênua de tecnologia, na qual a incorporação tecnológica significa
apenas “modernização”
(Monereo; Coll, 2010), entendida no sentido “futurista” criticado por Vieira Pinto (2005), frequentemente
reduzida à passagem do analógico ao digital. Assim, a reutilização da
técnica, como aponta Pinto (2005), se constrói dentro do modelo transmissivo.
É possível deduzir que a busca brasileira por modelos de ensino “futuristas” decorre do controle
tecnológico exercido por países desenvolvidos, como afirma o autor. Para superar esse cenário,
seria necessário que instituições e docentes, por meio do domínio TPACK
(Koehler; Mishra, 2013), repensassem suas metodologias de ensino e a
epistemologia que fundamenta sua concepção de tecnologia. O entrelaçamento
entre conhecimento tecnológico, pedagógico e do conteúdo poderia promover a
redefinição, caracterizando uma inovação radical (Campos, 2019). |
CAMPOS, Flavio Rodrigues. Inovação
ou renovação educacional? Dilemas, controvérsias e o futuro da
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